Muito se pode dizer sobre os Samael, mas, de forma a evitar redundâncias, preferimos acreditar que a carreira do quarteto suíço se pode resumir... Samael: inimigos do Sol (entrevista c/ Vorph)

Muito se pode dizer sobre os Samael, mas, de forma a evitar redundâncias, preferimos acreditar que a carreira do quarteto suíço se pode resumir numa palavra: indelével. Tivemos a oportunidade de trocar impressões com Vorph, mentor e vocalista/guitarrista da banda, no Laurus Nobilis Music 2019 – impressões sobre vinho, língua francesa e até pizza, entre outros, mas, obviamente, o ponto focal da nossa conversa foi a música. Após um concerto em que os Samael oraram preces antigas e preces mais recentes com a mesma mestria a que sempre nos habituaram, e num ambiente claramente descontraído, a banda recebeu-nos com a afamada hospitalidade de Sion: com um copo de vinho tinto e uma pergunta. «Como correu o concerto?», perguntou-nos Vorph. Indicamos que, na generalidade, assistimos a uma actuação perfeita, com bom som, óptima prestação instrumental e luzes e aspectos cénicos como se queriam. Na verdade, e finalizado o festival, concluímos que foi o melhor concerto do certame. Assim como o vinho, também as bandas maturam. Porque os Samael comemoram em 2019 as bodas de prata do lançamento de “Ceremony of Opposites”, indiscutivelmente o momento maior dos helvéticos, incidimos nesse primeiro tema – afinal, é relevante saber como é que a banda acha que o álbum amadureceu. Dos louvores generalizados por parte da imprensa e dos fãs aquando da sua edição em 1994 até aos dias de hoje, seria impossível não tentar perceber de que forma é que esse ponto de viragem para os Samael cresceu.

Vorph ainda tem algumas dificuldades em explicar esse crescimento. «Não é tão fácil de assimilar quanto parece. Na verdade, tocámos o álbum na íntegra há cerca de três anos [N.R.: em Portugal, no RCA Club] e vamos ainda tocá-lo na América do Sul; não estava planeado, mas os fãs pediram-nos e bom, vamos fazê-lo. Pensávamos que era algo que já tínhamos arrumado no sótão, mas não. Depois, tivemos de reprogramar tudo. Geralmente tocamos com uma caixa de ritmos ao vivo, mas as pessoas queriam ver-nos da forma tradicional, com um baterista. E isso foi bastante interessante. Agora, com dois guitarristas, cria-se uma harmonia maior; não é que se trate de uma questão muito importante, mas são esses pequenos detalhes que fazem a diferença. Assim, acho que é algo refrescante redescobrir essas músicas. E é engraçado quando olho actualmente para as letras que escrevi na altura. Continuam a significar algo para mim, mas é interessante ver como ainda te relacionas com elas, mesmo que a tua mentalidade e postura tenham mudado. Crescemos todos… ou pelo menos espero que sim! [risos] Este disco foi o primeiro em que eu e o Xy [teclista] dividimos funções – ele compôs todas as músicas e eu as letras, foi uma coisa nova para mim. Assim, é natural que a minha relação com o disco seja mais orientada para as letras do que para a música. Sim, sinto uma ligação à música, mas ela não nasceu de mim; logo, tento ter sentido de humor para o interpretar dessa forma: não nasceu de mim, mas sou pai dele. [risos]»

“Ceremony Of Opposites” é um trabalho que resistiu à erosão do tempo. Pensando bem, entre 1990 e 1995 quase todas as bandas hoje aclamadas a nível mundial lançaram a sua obra-prima, não obstante o género em que estavam inseridas. Editoras como Nuclear Blast, Osmose Productions, Metal Blade, Earache e Peaceville, todas capitalizaram com o surto de criatividade consecutiva que tanta e tanta banda libertou no mundo. No caso da Century Media, e juntamente com os nossos Moonspell, Samael e Tiamat foram, com certeza, dois dos representantes máximos dessa criatividade. Vorph anui. «Na verdade, não sabíamos se estávamos a lançar clássicos ou não – nunca sabemos, não é? Mas é verdade que nessa altura havia qualquer coisa no ar. Curiosamente, essa outra banda que referiste começou mais ou menos ao mesmo tempo que nós; tínhamos o mesmo background do heavy metal e do hard-rock e, depois, passámos para uma toada mais extrema e decidimos criar uma banda. Assim, o nosso background era similar, mas a forma de o exprimir era diferente. Foi um momento na linha temporal em que, coincidentemente, lançámos os nossos trabalhos quase ao mesmo tempo.»

Mas depressa os Samael mudaram de rumo. Dos inícios descomprometidos do negrume do black metal, passaram por várias mudanças que ainda vigoram na actualidade. De facto, logo após “Ceremony Of Opposites”, “Passage” (até o título ajuda) deu a conhecer ao mundo uma banda mais madura, técnica e sem medo de arriscar, verdade, mas também mais afastada do black metal. Parecia que os Samael estavam a tentar transitar da obscuridade para a luz. Tentámos saber o que ou quem ‘culpar’ por essa transição do profano para o sacro, por essa procura pela espiritualidade. «Gosto da maneira como colocam a pergunta [risos]», começa por dizer o vocalista a rir, consciente do porquê de ter sido colocada assim. «Prefiro pensar que procuramos por algo de diferente, porque se mantivermos sempre o mesmo caminho, sufocamos; se fizermos sempre a mesma coisa, perdemos a emoção. Quando lançámos os nossos discos, estávamos bastante emocionados com o caminho tomado e tentámos sempre manter essa emoção. Quanto ao dueto luz-escuridão… É algo cíclico, algo que vem e vai; acho que tens de te sentir confortável em avançar e regressar, pois faz parte da alma humana.  Não podes percorrer o teu caminho através de uma delas para te conheceres melhor, pois ambas fazem parte da condição humana. Podes-te apresentar mais inclinado para uma ou para a outra, mas luz e escuridão fazem parte de cada pessoa.»

No entanto, não teria sido a celebração de “Ceremony Of Opposites” um regresso à escuridão, como quem a revisita de tempo a tempo? Ou seja, um tríplice escuridão-luz-escuridão? «Pois, estivemos no escuro, avançámos para a luz e regressámos ao escuro, está certo. [risos]», ri um bem-disposto Vorph. «Actualmente isso não me faz impressão.» Quereria isso dizer que o vocalista não tinha desejo de regressar à escuridão? «Não, não é bem isso. Quando regressámos, talvez não me apetecesse regressar porque é um sítio onde já estive e que conheço. Depende do que significa “escuridão” para ti…Isto pode ser interpretado de vários ângulos…Eu não considero a escuridão como ausência de entendimento, de razão, mas ninguém gosta de se sentir no escuro, de se sentir perdido. Não estou a querer dizer que, nessa altura, me sentia perdido, mas que me sinto melhor no sítio onde estou agora. Saindo da escuridão, como já não tens medo de te perder, sentes-te mais livre para descobrir novas coisas e explorar.»

Tudo isto faz sentido quando ouvimos “Above”, um trabalho completamente atípico: música industrial, de teor marcial, electrónica. Não é estranho ouvir referências a SPK, por exemplo. Não se trata de um mau disco, longe disso, mas é verdade que apanhou muita gente desprevenida. Certamente, fruto dessa tal exploração que advém da liberdade de já não estar acorrentado à escuridão. «A ideia foi mesmo essa – apanhar as pessoas desprevenidas. Já tínhamos a música composta para ele aquando do “Eternal”, que foi lançado 10 anos antes. Queríamos lançá-la como um projecto paralelo, não como Samael, e então fomos engonhando, engonhando, engonhando… Engonhámos 10 anos, portanto. Quando chegou a altura (e até já tínhamos um conceito de capa), decidi que não faria sentido criar um projecto paralelo; logo, saiu com o selo Samael. Pensei que seria uma surpresa, que ninguém estaria à espera de um disco assim. Fez parte do nosso crescimento; correu bem e identificamo-nos com esse disco. Em digressão, era costume pormos essa música a correr e chegávamos sempre a essa conclusão: “Disco fixe! Devíamos pegar nisto e lançá-lo.” Mas depois sabes como é: digressão, disco novo, promoção do disco novo, digressão, disco novo, promoção do disco novo… E fomos atrasando o “Above”, que foi ficando de lado, mas sempre presente. Quando finalmente o acabámos, lançámo-lo. Tive que convencer os outros membros a lançá-lo como um disco de Samael… [risos] Eles não estavam mesmo para aí virados. O Xy, então, não queria mesmo nada e eu já sabia que ele iria pegar nos temas novamente e a aperfeiçoá-los, e isso era o que eu menos queria, pois adoro aquele som sujo e mais orgânico, mais caótico. Ainda hoje não chegámos a um consenso sobre a mistura, se foi a correcta ou não, mas está feito. Não era suposto ter acontecido, mas aconteceu, e talvez façamos algo diferente no futuro.»

E quem é que não gostaria de prever o futuro? «Boa pergunta. Para o ano que vem, para além dos festivais de Verão, vamos tentar ir em digressão pela Europa de Leste, tipo Polónia, etc., pois não o chegámos a tocar lá, não como gostaríamos, portanto. Já temos algumas ideias em mente, mas isso é só para 2021, temos tempo até lá.»

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