(Artigo da autoria de Rob Halford, vocalista dos Judas Priest) Não dá para enfatizar o suficiente quão importante foi Pantera para salvar o heavy... Rob Halford (Judas Priest): «Nunca haverá outros Pantera»

(Artigo da autoria de Rob Halford, vocalista dos Judas Priest)

Não dá para enfatizar o suficiente quão importante foi Pantera para salvar o heavy metal ​​nos anos 1990. As coisas estavam a ficar um pouco melosas, especialmente na América. Então, apareceram estes quatro cavalheiros do Texas que captaram o verdadeiro espírito do heavy metal. Vinha dos seus corações e das suas almas. O metal dos anos 1990 precisava dos Pantera. Eles foram o trampolim para muitas outras bandas que se seguiram.

Eu não sabia nada sobre eles até mais ou menos 1990, quando os Judas Priest estavam a preparar a digressão do “Painkiller” em Toronto. Havia um canal de TV, o MuchMusic, que era como a MTV do Canadá, e eu estava a ver no meu quarto de hotel. Vi este tipo, o Dimebag, a falar sobre a sua banda, os Pantera, e sobre o heavy metal em geral. Mas tinha uma t-shirt do “British Steel”, então isso chamou-me à atenção. E depois passaram o clipe da música “Cowboys From Hell”, e eu fiquei imediatamente colado à televisão: ‘O que é isto? Isto é incrível!’

Depois liguei para os estúdios da MuchMusic e disse: ‘O Dime ainda está aí? Porque eu gostaria de aparecer e conhecê-lo.’ Meti-me num táxi e fui directo para o estúdio. Essa foi a primeira vez que estive com ele pessoalmente, e clicámos imediatamente. Ele era um grande fã de Priest, um grande fã de heavy metal em geral. Foi uma amizade instantânea.

Nessa noite, eles iam tocar numa pequena sala em Toronto, então fomos do estúdio para o local directamente. Foi aí que conheci o Phil Anselmo e o Rex Brown, e, claro, o Vinnie Paul. A hospitalidade do Texas de que as pessoas falam é uma realidade, e eu senti isso naquela noite. Estávamos a conversar e parecia que éramos amigos desde sempre.

Tocámos juntos nessa noite – eu continuei e fiz a “Metal Gods” e a “Grinder”. Estes laços foram forjados logo ali – laços de amizade, laços de música. Contei ao resto dos Priest sobre eles, e foi isso – acabámos por levar Pantera connosco para a Europa na digressão do “Painkiller”, que é onde a banda foi apresentada aos metaleiros europeus pela primeira vez.

A identidade que todos conheciam deles estava lá desde o início. Eram um verdadeiro gangue, não dava para disfarçar. Eles estavam sempre juntos no camarim. Às vezes entravam no camarim dos Priest, sentávamo-nos e conversávamos enquanto bebiam um pouco. Ou mais do que um pouco…

A banda queria tanto aquilo. Tocavam em qualquer lugar e a qualquer momento, e dariam 1000%. Faziam o que fosse preciso para se estabelecerem e tornarem-se uma força sólida no heavy metal. Queriam muito aquilo – nem conseguiam esperar por subir ao palco. E tinham todo o poder, recursos e energia que qualquer banda jovem tem. Só de vê-los a tocar noite após noite, a darem tudo como se fosse o último concerto que davam, era muito potente.

Eram party animals – esse lado do mito de Pantera não era desproporcional. Estavam a viver a vida, como qualquer jovem banda de metal, que está a ser bem-sucedida, tem o direito de fazer. É um ritual de passagem. Estás em digressão com uma banda que adoras – no caso deles, Judas Priest –, vais a países que nunca sonhaste ver, é claro que vais viver a vida e absorver tudo no caminho, aproveitando apenas as coisas ao máximo.

Mas ao mesmo tempo que se divertiam, nunca deixavam que isso interferisse na música. Levavam isto muito, muito a sério. Não teriam conseguido o que conseguiram se não tivessem levado isto a sério.

Nunca lhes dei conselhos. Francamente, não acho que precisassem. Estavam muito confiantes e tinham-se em grande conta. No entanto, eram muito humildes – não se exibiam nem se gabavam, do tipo: ‘Vamos ser a próxima grande cena.’ Não havia nada disso em Pantera. Nenhum dos membros da banda demonstrou qualquer arrogância ou aquele elemento que às vezes existe no rock n’ roll. Eram verdadeiros cavalheiros a esse respeito.

Tive a sorte de gravar com eles no início dos anos 1990. Fizemos uma música juntos, a “Light Comes Out Of The Black”, para a banda-sonora do filme “Buffy The Vampire Slayer”. Na altura, eu estava em Phoenix e o trabalho tinha que ser feito muito rapidamente. Liguei para o Dimebag e ele disse: ‘Vem cá.’ Eu disse: ‘Quando?’ E ele disse: ‘Quando quiseres.’ No dia seguinte fui de avião para Dallas, fui de táxi para o estúdio e percorremos as demos em bruto. Toda a gente estava tipo: ‘Feito.’ E bang, fizemos a cena numa questão de horas.

Sem dúvida que me influenciaram. Todos nós, em Priest, subíamos ao palco e víamo-los tocar. Tens de estar ciente do que está a acontecer à tua volta, porque podes ganhar muito discernimento e inspiração através de novas bandas que mudam o jogo. E os Pantera, definitivamente, mudaram o jogo. À época, não creio que houvesse mais alguém que tivesse este tipo de poder feroz e força, agressão e conexão.

Eles tinham os riffs, o groove, o carisma, o poder – todas essas coisas. Claro que, em Dimebag Darrell, eles tinham alguém que era apenas fantástico – o gajo que mudou a maneira como as pessoas tocavam guitarra no metal. Mas para mim, era também sobre a seção rítmica – não tens uma banda a menos que tenhas um grande baterista e um grande baixista, e o Vinnie Paul e o Rex Brown estavam no topo com os melhores.

E também foi pela maneira como juntavam as suas canções que se tornaram especiais. E o modo como eles evoluíram do “Cowboys From Hell” para o “Vulgar Display Of Power”, para o “Far Beyond Driven” e para o “Great Southern Trendkill” foi notável. Estavam mais intensos, mais poderosos e mais fortes. Elevaram-se ao próximo nível e arrastaram o metal com eles.

Claro, espatifaram-se e queimaram-se no fim. Foi triste, mas não acho que tenha sido incomum, especialmente quando há quatro personagens individuais muito fortes como eles. Como milhões, eu gostaria que tivesse havido uma oportunidade para que se tivessem reparado as fracturas e curado as divisões, porque, no final de contas, é a música que importa mais do que qualquer outra coisa, independentemente dos demónios interiores. Tem que se tentar encontrar uma maneira de superar isso e ouvir o som que se faz em conjunto.

No meu coração, acho que se o Dimebag não tivesse sido tirado de nós, a banda teria voltado a reunir-se nalgum momento. O tempo faz isso contigo. Olhem para o Guns N’ Roses, olhem para o Bruce e Iron Maiden, olhem para Priest. A certa altura, todos nos entreolhámos e dissemos: ‘Sabem que mais, vamos fazê-lo, porque o que temos é incrível como o c*ralho.’ Agora, o Vinnie também se foi – sinto-me triste porque não vamos ter a oportunidade de testemunhar isso agora. Estive com o Vinnie muitas vezes ao longo dos anos. Ele entrava no camarim sempre que estávamos na cidade e era sempre bem-vindo. O sucesso não o mudou nem um pouco.

Vi-o pela última vez na recente digressão dos Priest pelos Estados Unidos – ele estava ao lado do palco, a curtir a música. O Vinnie era assim – ele queria estar lá. Ele adorava a vibração do heavy metal. Ele ainda era o mesmo tipo que eu me lembro de ter conhecido naquele pequeno clube em Toronto anos antes, quando quase ninguém sabia quem era Pantera. Essa é outra medida do sucesso – conseguires manter a cabeça nivelada e não trazeres a tua persona em palco cá para fora. Isso era o Vinnie. Aquela hospitalidade do Texas não era invenção. Era parte da sua alma. Ele era um tipo muito adorável, atencioso e generoso. Alguma vez leram alguma coisa negativa acerca do Vinnie Paul?

Há tantas músicas óptimas de Pantera. Mas se há uma que define tudo para mim, é a “Cowboys From Hell” – a primeira música que ouvi anos atrás. Mas também adoro a “Walk” – dá para ouvir a interacção entre o que o Dimebag, o Vinnie e o Rex fazem, e consegue-se ouvir a essência dos Pantera ali mesmo.

Nunca haverá outros Pantera. São uma banda única e icónica, e inspiraram muitas bandas únicas e icónicas. Este é o selo que eles deixaram. Haverá sempre bandas a dar uma experiência semelhante – o heavy metal prospera nisso –, mas no que diz respeito a outros Pantera: não, nunca. Nem acho que precisa de haver. Houve apenas uns Pantera, e é assim que deve ser deixado.

Consultar o artigo original em inglês.

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