Se há bandas que se podem orgulhar de continuar a marcar compasso entre terrenos instáveis, sem dúvida que Pelican é uma delas. Pelican “Nighttime Stories”

Editora: Southern Lord
Data de lançamento: 07.06.2019
Género: post rock/metal
Nota: 4/5

Se há bandas que se podem orgulhar de continuar a marcar compasso entre terrenos instáveis, sem dúvida que Pelican é uma delas.  Afinal, são já quase 20 anos de carreira a criar melodias que aliam os traços pantanosos do sludge às mais delicadas atmosferas do post-rock. Por isso mesmo são tantas vezes encaixados na categoria de post-metal, ao lado de bandas como The Ocean, Russian Circles ou Isis, mas, verdade seja dita, desde cedo se destacaram pelo cunho característico do seu som, agradando aos mais exigentes fãs deste género, mas não escapando aos mais apurados ouvidos do metal ao indie rock. A evolução deste som pode dividir-se em diferentes fases, e “Nighttime Stories” surge como um regresso a um período mais sombrio, predominante nos seus primeiros anos de carreira.

Passados seis anos desde o último “Forever Becoming”, o quarteto norte-americano volta a fazer-nos embarcar numa verdadeira odisseia, revisitando inúmeros lugares e memórias. Alterações na composição da banda e estilo de vida dos seus elementos serão apenas alguns dos motivos por detrás da escrita de um álbum mais emocional, mas também mais visceral. Sem grandes segredos, a banda revelou que, tanto a perda de amigos e familiares como a própria situação cultural e política do local onde vivem, terão sido as principais inspirações. Por isso mesmo encontramos nos títulos das faixas e no próprio artwork do álbum vários elementos que nos remetem para Tusk, banda de Jody Minnoch, um grande amigo recentemente falecido.

Entre homenagens aos que lhes serão sempre próximos e intencionais hinos à inquietude e revolução, encontramos oito temas de pura catarse. Numa banda destas, a ausência de voz acaba sempre por se tornar uma mais-valia, reservando o devido tempo e espaço para cada um dos instrumentos e suas variações. Se se costuma dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras, poderia tornar-se arriscado atribuir um valor a cada um destes riffs. Catchy sem se tornar straightforward, em que constantemente se intercalam momentos de introspecção com passagens mais caóticas. Em nenhum momento a complexidade se sobrepõe à definição, e podemos desfrutar de cada um dos instrumentos durante todos os minutos do álbum. A secção de ritmo, com algum destaque para o baixo, merece especial atenção, sobretudo no tema “Full Moon, Black Waters” em que quase podemos sentir as vibrações das cordas nas pontas dos nossos dedos. Tanto neste tema como em “It Stared at Me”, revelam-se outras influências da banda, quando um tom mais psicadélico nos transporta para um plano mais pinkfloyd-esque. Para além de tudo isto, conseguem talvez o mais difícil: fazê-lo funcionar em versão álbum completo e faixa a faixa. Uma composição robusta e criativa, em que qualquer aura sombria se pode tornar esperançosa.

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