Guitarra ao ombro, posição de caranguejo e pintura à bolacha Oreo. É assim que se cria um cosplay de Immortal, mesmo que a marca... Immortal: 20 anos de “At The Heart Of Winter”

Guitarra ao ombro, posição de caranguejo e pintura à bolacha Oreo. É assim que se cria um cosplay de Immortal, mesmo que a marca imagética da banda talvez passe a ser mal vista por Demonaz e Horgh, pois todos sabemos porquê: Abbath já não é um sacerdote de Blashyrkh – pelo menos aos olhos do duo que se mantém ao leme dos Immortal. O drama irrompeu pela Internet com acusações vindas dos dois lados, sendo que a incriminação mais grave tenha passado pelo facto de Demonaz e Horgh denunciarem o roubo de material composto para, assim, surgir o primeiro álbum a solo de Abbath em 2016.

A discografia da banda norueguesa é rica e as críticas falam por si. “Pure Holocaust” (1993) pertence a uma fase de jovem criação com arestas por limar e “Sons Of Northern Darkness” (2002) revelou uns Immortal a remar, e bem, contra a maré da música plástica, mas o mais alto rasgo de iluminação criativa deu-se em 1999 com “At The Heart Of Winter”. Este é daqueles álbuns que raramente se ouve em dias solarengos – simplesmente não combina! Tudo neste opus é glacial e invernoso: o título, a capa, os riffs, as vozes e até as teclas moderadas que se ouvem esporadicamente. Se há álbum de black metal que representa o Inverno, “At The Heart Of Winter” é o tal, o the one como dita a gíria internacional.

A abrir explode logo a melhor música dos Immortal – e, sim, é discutível como qualquer classificação de arte. “Withstand The Fall Of Time” é daqueles temas que nos faz querer ouvir mais uma vez antes de seguir em frente. Não neguemos: Abbath é o riffmeister do black metal. Se quisermos colocar toda a sua mestria numa só faixa, então não precisamos de ir muito mais longe e dissecar as notas que dá e as estruturas que cria neste arrombo de música. No entanto, há mais em “At The Heart Of Winter”. Numa colecção sónica que dura 46 minutos, há notas ecoadas que materializam musicalmente os vales frios do universo nórdico da banda e há passagens épicas que podem não representar enormes exércitos, mas que coroam a robustez unilateral deste grupo, como o riff quase solitário da última “Years Of Silent Sorrow”. Porventura, será injusto pôr de parte as letras intemporais de Demonaz ou a bateria de Horgh que faz tremer o gelo permanente no subsolo, mas o que se há-de fazer? Abbath era, àquela época, o maquinista de Immortal – não há volta a dar-lhe.

“At The Heart Of Winter”, como boa parte de toda a discografia, foge do estereótipo do black metal norueguês se nos debruçarmos na totalidade da sua sonoridade e conceito. Nunca precisaram de se rodear da facilidade em usar o nome de Satanás para transmitir a garra e a guerra, pois o reino de Immortal centra-se e fecunda-se no imaginado Blashyrkh; e, por outro lado, também nunca se lançaram levianamente pelo anticristianismo, porque para eles não é o fogo e a ofensa barata que destrói o que há a destruir, mas o gelo e a neve que se formam num Inverno eterno. Os Immortal são assim e são únicos…

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