Enquanto crianças a crescer em Ondres, uma localidade tranquila na costa sudoeste de França, Joe Duplantier e o irmão mais novo, Mario, construíam tocas,... Mario Duplantier (Gojira): «Por mais feio que o mundo possa ser, podemos mudá-lo»
Foto: Steve Brown

Enquanto crianças a crescer em Ondres, uma localidade tranquila na costa sudoeste de França, Joe Duplantier e o irmão mais novo, Mario, construíam tocas, apanhavam madeira e galhos caídos dos bosques próximos para fazerem refúgios rudimentares nos quais se escondiam horas a fio para observarem os rituais diários do mundo natural a desenrolar-se lentamente. Memórias daqueles inocentes e idílicos dias voltaram aos irmãos Duplantier quando começaram a trabalhar na construção do próprio estúdio no ambiente menos bucólico de Ridgewood, no bairro de Queens, em Nova Iorque, durante o Inverno de 2014. Dia após dia, o par transportou areia, madeira e cimento para o armazém, trabalhando de manhã à noite com martelos, serrotes e pás na construção e nas mais severas condições climáticas. Não era um trabalho fascinante – ao início, a falta de casas-de-banho exigia defecar em sacas plásticas – mas, na Primavera de 2015, os irmãos vocalista/guitarrista e baterista de Gojira estavam eufóricos com o estúdio dos seus sonhos, agora chamado Silver Cord Studio, que reunia exactamente o que imaginavam.

«Quando compomos e gravamos um disco, precisamos de nos sentir confortáveis, como se estivéssemos no nosso próprio casulo», diz Joe Duplantier. «Ao construirmos este espaço, fomos capazes de sermos particulares com os materiais que tínhamos em nosso redor – as texturas, visual e iluminação. Somos franceses, portanto somos muito poéticos, românticos e sensíveis, e acreditamos que está tudo ligado; então, se gostarmos das paredes para as quais olhamos, a música que fazemos dentro destas paredes provavelmente soará bem quando gravamos.»

Em Abril de 2015, os irmãos estabeleceram-se no Silver Cord para começar a trabalhar no seu sexto álbum, o sucessor do aclamado “L’Enfant Sauvage” de 2012. Apenas duas semanas no processo, os irmãos receberam notícias de que a mãe estava gravemente doente no hospital, e aquele mundo cuidadosamente construído começou a desmoronar.

A vivaz estudante americana Patricia Rosa tinha apenas 20 anos quando conheceu e se apaixonou pelo artista francês Dominique Duplantier durante uma viagem à Europa no início dos anos 1970. Os dois casaram-se e estabeleceram-se perto de Bayonne, onde Patricia dava aulas de ioga e dança enquanto criava três filhos – Joe, Gabrielle e Mario. Entrevistada em 2013 pela revista Decibel, Patricia recordou o filho mais velho, Joe, como um jovem «criativo, sensível e gentil», enquanto Mario, cinco anos mais novo, era «uma criança expansiva, divertida, amável, despreocupada e aberta». Os irmãos falam da sua infância como «bonita, orgânica e feliz», com ambos os pais a darem caloroso encorajamento e apoio nos seus vários esforços criativos. «Foi um ambiente muito agradável», lembra Joe. «A vida era a criar coisas estranhas o dia todo. E a nossa mãe ensinou-nos a respeitar as coisas e as pessoas. Ela sempre se interessou pelo mundo natural, pegava sempre em pequenas pedras e pedaços de madeira na praia e juntava-las para fazer algo bonito. Ela ajudou a tornar-nos quem somos.»

Como seres humanos articulados, bem-educados, pensativos e compassivos, os irmãos Duplantier são um verdadeiro crédito para a sua formação. Sentar ao lado do leito da mãe, enquanto lutava contra o cancro, era naturalmente doloroso e traumático para os filhos amorosos, com Joe a recordar esse tempo como «um verdadeiro pesadelo». «Ela estava a sofrer muito, foi o inferno para ela», diz Joe em voz baixa. «Não sabíamos se havíamos de esperar que melhorasse ou se preferíamos que acabasse rápido. Foi tortura espiritual e mental por não sabermos o que desejar. Tivemos que aprender a não esperar, mas a viver apenas no momento.» A 5 de Julho de 2015, rodeada pela família, Patricia Rosa Duplantier faleceu.

Deixados para reunir as peças das suas próprias vidas, depois de voltarem para Nova Iorque com os seus próprios filhos e retomar o trabalho no novo álbum, Joe e Mario sentiram-se muitas vezes sobrecarregados de emoção durante as sessões de gravação – lágrimas a correr pelo rosto enquanto faziam novas músicas. Compreensivelmente, o novo material de Gojira foi infundido com memórias do passado e reflecções comoventes e afectivas sobre a vida, amor, perda e mortalidade. Muito como “Purple” dos Baroness, outro álbum nascido de experiências angustiantes, a colecção resultante de músicas tem uma qualidade transcendente e edificante, revelando esperança e luz no meio da escuridão. Em “The Shooting Star”, Joe Duplantier canta: «When you get to the other side, please send a sign». Em “Low Lands”, as letras dizem: «While you drift away from all the plagues of this world, you’re put out of misery… Giant monster, you won’t have to face it again». E na faixa-título do álbum, “Magma”, as suas palavras são: «The poison slowly spreads, through the body and the mind. Close your eyes and drop your things, be ready to fly…».

Por mais que seja um álbum obviamente enraizado numa tragédia pessoal, “Magma” surge como uma celebração da vida, da liberdade e do pensamento e acções independentes, e um emocionante tributo ao poder redentor do amor.

«A parte da celebração é verdadeira», diz Joe. «Fizemos este álbum com tristeza e dor, mas é uma expressão pura de sentimentos no momento: estamos de luto, mas ao mesmo tempo há alegria. Mesmo que tenhamos perdido a nossa mãe, de certa forma não a perdemos, porque ela criou-nos, e nós somos parte dela – de alguma forma o espírito dela ainda está connosco.»

«Lembro-me quando decidimos dar o título “Magma” ao álbum», diz Mario. «Foi quando a nossa mãe estava no hospital e foi o momento mais difícil para todos nós. Estávamos a sentir uma mistura entre memórias do passado e um medo do futuro, com todas as emoções a queimar por dentro. “Magma” é a expressão de algo que ferve por dentro: não podemos tocar, mas eventualmente entrará em erupção. Faz todo o sentido em relação ao que estávamos a sentir no momento.»

Talvez inconscientemente, o álbum também alude ao ponto em que os Gojira se encontravam na sua carreira em 2016 – especificamente, a ideia de que a banda estava à beira de algo explosivo. Há pouco mais de dez anos, a 19 de Maio de 2006, o quarteto francês, formado ainda pelo guitarrista Christian Andreu e pelo baixista Jean-Michel Labadie, deu o primeiro concerto no Reino Unido numa pequena sala à beira-mar de Brighton. Foi imediatamente visível para as poucas centenas de pessoas presentes – entre as quais, Alexander Milas da Metal Hammer – que algo muito especial havia dado à costa: as conversas naquela noite eram centradas na noção de que ali, diante daqueles olhos, estava o futuro do metal. Se os dois álbuns que se seguiram – “The Way Of All Flesh” de 2008 e o brilhante e complexo “L’Enfant Sauvage” de 2012 – não impulsionaram o quarteto francês para a primeira liga do metal, certamente atraíram para a banda o respeito e admiração dos maiores hitters – Metallica, Iron Maiden, Lamb Of God e Mastodon estão entre os grupos que levaram Gojira em digressão – e ajudaram a fazer crescer uma base de fãs leal, apaixonada e ferozmente evangélica.

Apesar das raízes estarem no death metal, um comentador na Internet resumiu a ética e a integridade da banda quando baptizou Gojira como ‘Life Metal’, uma tag que fala tanto da visão optimista e humanista do quarteto quanto da sua incansável e destemida defesa das causas ambientais. Embora “Magma” seja politicamente menos explícito a esse respeito, a sua letra principal, encerrando a pulverização de “Silvera”, diz: «When you change yourself, you change the world», um ethos que Joe e Mario identificam como a principal mensagem da banda.

«Não somos guerreiros ecológicos», insiste Mario, «mas somos seres humanos conscientes e, é claro, pensamos na vida e em como gostaríamos de viver. E esses pensamentos têm eco. Não é apenas sobre a ecologia da natureza, é também sobre a ecologia dos seres humanos. Todos temos a responsabilidade de pensar e de fazer coisas que enriquecem a nossa palavra. É um mundo caótico, com uma economia baseada na fraude e na política baseada em corrupção, mas por mais feio que o mundo possa ser, podemos mudá-lo».

«Somos uma banda espiritual, porque preocupamo-nos com o tipo de energia damos», acrescenta Joe. «Há músicas que escrevemos para “Magma” que eram mais sombrias, mas fomos cautelosos a inserir a energia má. Em termos de infinidade, não há coisas pequenas, tudo é importante. As pessoas reclamam do mundo, tipo, ‘Argh, isto é uma merda!’, mas desistes? ‘O mundo está poluído, então vou poluir mais! Todos roubam, por isso vou roubar mais!’ Criamos o mundo, criamos o nosso ambiente. Ouvem-se as pessoas a usar a palavra ‘eles’ – como em ‘eles querem que nós…’ – quando falam sobre o governo ou as classes dominantes, mas ‘eles’ somos ‘nós’. Se eu acho que as pessoas reclamam demais, eu devia reclamar menos. Se eu acho que as pessoas são muito gananciosas, eu devia ser menos ganancioso. Fazes parte das pessoas; então, se te esforçares mais um pouco, poderás efectuar mudanças.»

Para os irmãos Duplantier, o interesse pelas questões ambientais é tão natural como respirar. Enquanto crianças, crescendo no litoral, os miúdos passavam quase tanto tempo no mar como em terra, e Mario lembra-se dos dias de doenças agonizantes causadas directamente por poluentes na água, causando infecções nos ouvidos. Uma área ambientalmente protegida, as dunas em Ondres não eram limpas regularmente, o que significa que Joe e Mario encontrariam animais mortos, resíduos industriais e lixo doméstico diariamente.

«Regressávamos a casa com manchas de óleo nos pés, portanto podíamos ver fisicamente que essa merda chegava à praia todos os dias», diz Mario. «Magoávamo-nos ver a poluição desnecessária.» «Setenta por cento do nosso planeta é água, mas porque não é o nosso elemento natural, é o ambiente que violamos, poluímos e destruímos, sem quaisquer restrições», acrescenta Joe. «Como é que as pessoas não se aborrecem com isso? Por é que alguém acha que isso é algo fácil de ignorar? Não confrontamos activamente as pessoas que fazem isso, mas, enquanto tivermos voz, continuaremos a falar. Pensar positivo é uma decisão. Nunca desistiremos, mesmo que o mundo pareça f*dido.»

Por mais eloquentes e apaixonados que os irmãos sejam sobre as causas em que acreditam, não são políticos mas músicos.

«Todas as salas são maiores do que antes», diz Joe com um sorriso, «portanto é uma sensação boa». Uma banda há 20 anos, Gojira pode não ser a mais faminta do circuito, mas não se deve confundir genialidade autoconsciente assegurada como indicação de falta de ambição. Perguntámos a Joe e Mario se eles sonham ser a maior banda de metal do mundo e, em uníssono, os irmãos exclamaram: «Claro!» «Temos esse sentido competitivo, como todas as outras bandas», diz Joe. «Ainda queremos arrumar com as outras bandas. Vejo o negócio da música como um caminho escorregadio. Se não fores cuidadoso, podes cair em segundos e magoares-te muito. Ou se subires muito alto rápido demais, podes ficar tonto e cair. É como caminhar sob uma corda – não podes correr, mas se fores cuidadosamente, passo a passo, consegues progredir. Damos passos pequenos na nossa carreira e não agarramos desesperadamente todas as oportunidades disponíveis, mas evoluímos e ficamos mais confiantes em nós mesmos a cada ano que passa.»

«Estou muito feliz com o que alcancei com esta música complexa, obscura e mística, mas não achamos que atingimos o nosso limite», acrescenta Mario. «Com “Magma”, talvez pela primeira vez, estamos todos 100% felizes com o álbum. Tendo o Joe como produtor e toda a banda a trabalhar em conjunto de A a Z, conseguimos manter todo o nosso charme e personalidade intactos, e isso dá-nos mais confiança sobre o que está por vir.»

Sem exagero ou compromisso, emergiram discretamente como uma das bandas mais essenciais e necessárias no mundo, um grupo que manteve a sua integridade, consciência e alma, mesmo quando a popularidade aumentou. Mais acessível do que qualquer coisa que a banda tenha lançado até hoje, “Magma” pode marcar um ponto de inflexão numa jornada de 20 anos. E por mais que os irmãos Duplantier enfrentem o futuro sem o seu mais antigo e leal apoiante, os dois estão seguros na crença de que o espírito da mãe guiá-los-á com segurança.

«É engraçado», diz Joe, «porque sempre pensei muito sobre a morte e escrevi músicas sobre tal, mas quando és forçado a encarar isso, continua a ser um grande mistério. Mas tenho uma intuição de que a nossa consciência permanece. Sinto que somos mais do que uma pilha de ossos e carne, mais do que apenas órgãos a funcionar em conjunto: de alguma forma, não acredito no fim do espírito ou da alma. Ainda sinto a presença da minha mãe, porque o amor dela é interminável. E agora queremos continuar a deixá-la orgulhosa».

Consultar artigo original em inglês.

Outras publicações: