1 de Novembro de 1755Por volta das 9 horas e 30 minutos do dia 1 de Novembro de 1755, Lisboa tremeu, o mar invadiu... Fernando Ribeiro (Moonspell) sobre “1755”: «Vejo-o numa importância como se fizesse um livro novo ou uma ópera sobre o terramoto»
Foto: João Correia

1 de Novembro de 1755
Por volta das 9 horas e 30 minutos do dia 1 de Novembro de 1755, Lisboa tremeu, o mar invadiu as ruas, as pedras ruíram e a madeira ardeu. Era o Dia de Todos-os-Santos, milhares povoavam as igrejas e as vias de uma das maiores capitais do mundo. Milhares sucumbiram à ira de Deus – era a Divina Providência a fazer com que as almas lusas pagassem pelas suas faltas. Mais de 260 anos depois, os Moonspell relembram a data e o acontecimento com o álbum que dá pelo título de “1755” – mais preciso era impossível. No entanto, a banda portuguesa, nas palavras de Fernando Ribeiro, não se limita às crenças religiosas e vai mais longe: «Se me perguntarem se na actualidade as pessoas fazem esse raciocínio, acho que o terramoto, quer historicamente quer a nível de prevenção, está um bocadinho esquecido. Não é um assunto que talvez interesse, não é um assunto épico, porque também foi um assunto bastante destrutivo, que levou a muitas mortes, muito caos, muito sangue, pessoas esmagadas… Mas sem dúvida que “1755”, visto pelos Moonspell, é muito mais do que um desastre natural. Para nós, e para mim – pela pesquisa que fiz, pelas pessoas com quem falei, pelos livros que li acerca do terramoto, da altura, no virar do Séc. XVIII para o Séc. XIX –, foi um evento muito importante. Nomes grandes da filosofia, como Voltaire e Kant, escreveram sobre o terramoto de Lisboa; a nível científico também se progrediu, porque finalmente deu-se lugar à sismologia, que não existia até aí – também foi um progresso feito depois do terramoto, portanto toda essa parte social, religiosa e filosófica teve um impacto tão grande quanto o desastre natural, porque realmente mudou muita coisa.»

Podíamos ter feito um disco duplo ou triplo, porque realmente o terramoto é um assunto muito interessante.

Fernano Ribeiro (Moonspell)

Voltaremos brevemente a Voltaire e a Kant, mas a figura principal deste acontecimento é Marquês de Pombal, o ministro de D. José I, que revitalizou Lisboa a nível físico (ainda hoje se vêem construções Pombalinas) e Portugal a nível mental: «Dizia-se que Portugal era um país dominado pela Coroa e pela Cruz», fazendo alusão ao poderio imperial e religioso, «mas o Marquês de Pombal veio, de alguma forma, aproveitando o ensejo catastrófico, fazer um Portugal moderno. Portugal estava parado no tempo – completamente. Não existia ou subsistia, e havia uma grande garra católica sob a forma da Inquisição e dos Jesuítas que mantinham o país numa ordem que já não existia nos outros países – já não existia em França, em Inglaterra, na Alemanha, na Holanda… Era só Portugal, Espanha e Itália que ainda mantinham esse catolicismo, e filosoficamente, mais no campo da filosofia da religião, acho que o terramoto colocou uma grande questão ao que se vivia na época – que era uma espécie de harmonia com Deus, que Deus castigaria se não fosse cumprida. Mas as pessoas não se conformaram com isso, porque toda a gente pensava que era temente a Deus e houve um grande questionamento sobre se terá sido isto um castigo de Deus, o que depois Kant veio racionalizar e Voltaire veio filosofar à maneira dele. É um assunto extremamente interessante, pois isto tudo começou por ser um projecto para fazer um EP de quatro temas e que realmente agarrou-nos para um disco. O que é curioso é que quanto mais fomos explorando o tema, mais difícil era fechar o disco. Podíamos ter feito um disco duplo ou triplo, porque realmente o terramoto é um assunto muito interessante não só a nível científico, mas – para mim, que sou mais pessoalmente identificado com outras áreas – também a nível filosófico.»

Das várias coincidências macabras e das várias histórias que se contam do terramoto, penso que a mais espectacular é o terramoto ter acontecido no Dia de Todos-os-Santos.

Fernando Ribeiro (Moonspell)

Regressemos então à religião. Catástrofes, naturais e não só, eram sempre vistas como a fúria de Deus – e ainda hoje assim é nos recônditos mais fanáticos –, mas haverá algo mais eminente do que este desastre ter ocorrido em pleno Dia de Todos-os-Santos? É macabro, e a voz de Moonspell anui: «Sim, das várias coincidências macabras e das várias histórias que se contam do terramoto, penso que a mais espectacular, por assim dizer, é o terramoto ter acontecido no Dia de Todos-os-Santos, um dia que já foi pagão mas que, na altura, era profundamente religioso, tanto que», como já referimos, «houve gente que foi às missas matinais e ficou esmagada debaixo das igrejas que caíram para depois, quem não ficou, ir buscar pedras dessa igreja para reconstruir as casas; portanto houve este tempo de ciclo de vida e de morte que nós falamos muito no “1755”.» Porém, e para responder à nossa pergunta, «o que se questionou bastante foi exactamente este tipo de coincidências – como é que isto se julgava na mente das pessoas. Como é que aquele padre, segundo a lenda, conduziu as pessoas pelo lado errado, sendo depois engolidas pelo tsunami… Todos esses episódios e todas essas coincidências tornaram-se um bocadinho no folclore do terramoto, e claro que foram aproveitadas por nós». E hoje? Neste ainda jovem Séc. XXI, e com “1755”, «temos várias referências ao dia; temos inclusivamente uma canção chamada “Todos os Santos” e temos uma chamada “Primeiro de Novembro”», tudo porque, e achando o artista que «era também um bocadinho apanágio da época e da falta da informação, como há hoje em dia em que sabemos muitas coisas ao minuto, o terramoto foi tendo aceitação ou, pelo menos, foi suscitando uma observação bastante longa durante os anos [seguintes]. Ainda se falava do terramoto quase um século depois de ter acontecido». Fernando Ribeiro acha que «essa carga simbólica foi extremamente importante», para prosseguir assim: «Claro que, hoje em dia, estamos demasiado longe para pensar nisso ou para nos recordarmos disso… Há pessoas que até nos disseram: ‘Ah, vocês andam aí a chamar desgraças…’ Pronto, se houver um terramoto vai ser culpa nossa. Acho que houve um no outro dia, numa escala de 4.3, estávamos a lançar as notícias [risos] e algumas pessoas fizeram a conexão, outras não… Há uma carga simbólica muito forte no “1755” e daí, como em todos os discos de Moonspell mas neste especialmente, termos que trabalhar nele bastante tempo, musical e liricamente, mas também a nível de capas, de enquadramento, a nível de espectáculo ao vivo. Penso que tudo tem de acompanhar um bocadinho este tom dramático e este tom simbólico da Lisboa tímida e, como nós vemos, do Portugal que foi renascendo das cinzas, não só Lisboa mas também praticamente todo o país.»

Antes e depois de “1755”
Para se construir algo como “1755” não basta ir à Wikipédia e/ou trocar leves ideias com possíveis conhecedores da História; é preciso ir ao fundo da questão, pesquisar com afinco e esmerar o artista que vive dentro da carne. «Como letrista tento sempre pôr-me ao lado de um guitarrista de heavy metal que está horas a fio a tocar os seus riffs, a aprimorar e a melhorar a técnica de dedos… Inspiro-me um bocado nesse trabalho de que gosto muito, tanto quanto os guitarristas gostam de tocar guitarra, e sento-me a pesquisar os temas, as palavras, as cadências certas. E para este “1755”, que era o primeiro álbum que eu escrevia completamente em português, tinha que fazer uma coisa que não disparatasse, que não fugisse do registo histórico, mas que também fosse poético, e havia ali uma linha que tive de encontrar e, felizmente, consegui. Da minha perspectiva, vejo isto como muito mais do que um disco dos Moonspell.» Ribeiro até tenta raciocinar as duas formas como vê “1755”, mas interrompe-se a si próprio para dizer que há coisas que também não vê, como o facto de este álbum não ser um sucessor de “Extinct”. Assim, e reencontrando o fio à meada, prossegue: «Vejo este disco – detesto a palavra projecto [risos] – como a nossa primeira aproximação a fazer discos que sejam de alguma forma documentos históricos. Não tem ficção – tem alguns abusos poéticos, mas é o estilo e também o veículo que sabemos, e o que gostamos de fazer é música. Para mim, e também para os Moonspell, vejo este disco numa importância como se fizesse exactamente um livro novo ou uma ópera sobre o terramoto, ou qualquer coisa do género. Coloco-o um bocadinho nessa estante de uma coisa que não é bem um disco e que não é de certeza um livro, mas que é de alguma forma um documento. Claro que a música desvenda o andamento dessa observação, desse documento que fizemos sobre 1755 com toda a poesia.» E o conceito de documento acaba aqui com “1755”? Não só não acaba como ainda faz o vocalista regressar aos tempos de escola: «Quando fechámos o disco fiquei com vontade de fazer mais coisas neste estilo. Acho que isto abre uma porta de par em par para os Moonspell, que é, no futuro, quem sabe, pegar noutro assunto que nos interesse – e temos tantos de História – e que tenha estas características. Acho que o terramoto seria o mais evidente para nós e também tem a ver com o que aprendi na faculdade e na escola secundária. Foi um assunto que sempre me despertou interesse, portanto nunca se sabe. Depois do “1755” vamos retomar onde achamos que deixámos o “Extinct”. Esse disco tem quase uma vida própria, um sabor a novo começo, ou pelo menos uma coisa que nós nunca fizemos antes, o que é bastante motivador.»

O álbum
“1755” está repleto de enormíssimas canções, como “Desastre”, “Abanão”, “Ruínas” ou “In Tremor Dei”, porém comecemos pelo início com “Em Nome do Medo”, aqui exposta numa versão desacelerada e em tom de intro, que figura originalmente em “Alpha Noir” (2012). Gostámos da adaptação, mas não ficarão os Moonspell com receio que digam que foi falta de criatividade e que não foi para um recalcamento que estivemos à espera? É que uma novidade quer-se em pleno, acharão muitos. «Não estou com receio, porque isso não corresponde à verdade», assegura o nosso entrevistado. «A história deste disco explica a escolha de “Em Nome do Medo”. Foi a primeira música que fizemos no tempo do “Alpha Noir”, completamente em português, dentro daquele registo mais eléctrico dos Moonspell. Sempre gostámos muito dessa música e até ficamos com vontade de fazer coisas nesse estilo, por assim dizer. Depois também tivemos Orfeu Rebelde – que fiz eu, o Rui Sidónio [Bizarra Locomotiva], o Bruno Paixão e o Rui [Alexandre] dos The Temple, que, sendo poesia de Miguel Torga, também tinha assim umas coisas em português com guitarras, bateria, etc.. Quando cheguei ao conceito do “1755” reparei nessas semelhanças. Reparei que o som, apesar de ser diferente, fez com que a ideia musical também nascesse daí. Nasceu dessa experiência com a “Em Nome do Medo”, desse teste que fizemos, e foi extremamente bem acolhido pelo público, não só em Portugal mas [também] no Brasil e mesmo junto de pessoas que não entendam a letra.» No entanto, quanto a esta faixa de abertura não nos ficamos por aqui, porque Ribeiro quer apresentar Jon Phipps, «uma personagem muito importante na construção do “1755”», o orquestrador que já tinha trabalhado em “Extinct” aquando da utilização de cordas reais. Também já colaborou com Amorphis e Angra, e os Moonspell, de alguma forma, mantiveram contacto com ele, como recorda o vocalista: «Achei que ele, sem dúvida, tinha um talento muito especial para fazer aquele tipo de orquestrações virtuais, não só para as fazer soar reais como soam no “1755” – acho que levantou muito a fasquia, até para as próprias interpretações de orquestras reais. Ele é realmente tão bom assim.» Diz-nos então que, na altura em que já estavam a pensar em fazer o EP, conversou com Pedro Paixão, que é também, ao lado de Ricardo Amorim, compositor de Moonspell, sobre o Jon Phipps – já se conheciam, «mas para um trabalho diferente», adianta. «O que eu pedi ao Jon Phipps para fazer», recorda, «foi uma versão orquestral de “Em Nome do Medo”, e foi por isso que tivemos a certeza de o contratar. Se ouvirem com atenção, muitos dos elementos do “1755” estão lá: os coros, as orquestrações… E acabamos por avançar com isso, [mas] não por falta de criatividade – aliás, foi a última música a estar pronta. [risos] O Jon quis dar uma grande volta àquilo – exactamente para fazer uma espécie de transição entre o que já é Moonspell e o terramoto. É uma coisa como quase todas as coisas em Moonspell: é uma decisão artística, não é pegar num copy/paste e meter lá a música do “Alpha Noir” – que está bastante diferente até. Para nós, é quase um preâmbulo para o disco. Agora o que as pessoas vão pensar, ou não, já me ultrapassa um bocado e também já estamos habituados a todo o tipo de histórias e de reacções». Relatamos, e sabe-se, que esta versão surge no início do alinhamento, mas todo o processo envolvente – desde seleccionar o tema a revesti-lo com a ajuda de Phipps – levou a banda a querer saber onde realmente ficaria bem. Fernando Ribeiro revela que ainda se pensou em metê-la no fim, como outro, mas reflectiu, e Paixão concordou que a deviam meter no princípio, porque como esclarece: «Temos toda esta ideologia por trás disto, esta linha musical, e acho que começa muito bem o álbum. Acho que é uma coisa que mete as pessoas no ambiente certo, e é para isso que serve uma introdução. Esta é um bocadinho mais longa do que o habitual, mas não temos qualquer tipo de barreiras ou limites. Quando estamos a fazer um disco colocamos tudo o que achamos que serve para passar a mensagem, neste caso o conceito do terramoto.»

Logo a seguir vem o tema-título “1755” que nos remete àquela abordagem oriental e árabe dos tempos de “Under the Moonspell” (1994), mas também à existência dessas civilizações na cidade de Lisboa – se há arquitectura Pombalina em directa relação ao pós-catástrofe, também é verdade que Lisboa foi antes dominada por islâmicos que, mesmo depois de expulsos por D. Afonso Henriques, retornariam à capital devido à demanda dos Descobrimentos. Confidencia que Pedro Paixão queria libertar essa música em primeiro, mas o vocalista acha «que é mais uma música de álbum por ser muito representativa do que se vai passar – daí ser tema-título». «É uma música muito abrangente a nível melódico do que quisemos fazer musicalmente. Claro que havia toda a parte lírica, toda a parte conceptual, e quando nos sentámos descobrimos imediatamente que tinha de ser um disco mais pesado, com mais guitarras, mais bateria e mais violento. Um disco sobre um terramoto!» Pura verdade, pois Ricardo Amorim executa malhas e solos ao mais alto nível. Ainda assim frisa que não queriam abrandar, porque desejavam transmitir coisas muito importantes que aconteceram na combinação da Lisboa de 1755: «Fundir todos os árabes e africanos que moravam cá, que na altura já estavam completamente misturados com o povo português – tinham filhos, partilhavam cultura, partilhavam música. Daí o nascimento do fado e as suas raízes». Não se esquecendo da nossa referência ao mítico EP de 1994, concorda que, realmente, esta faixa lembra-o um bocadinho de “Under The Moonspell”: «Tem um ambiente bastante parecido e até ficamos bastante agradados com isso, pois também tem a ver com as origens da nossa própria existência enquanto banda. Por outro lado queríamos aquele sagrado-profano, ou sacro-profano, que conseguimos através dos coros, porque também se cantava muita música religiosa em Lisboa – nas missas – e queríamos ter momentos musicais para reforçar ainda mais a época. Acho que essa era a ideia que tínhamos para juntar estes vários mundos que se uniam em Lisboa, uma cidade bastante populosa, com bastante importância comercial e política. Portanto havia cá muita gente, muitos feitios a viver numa relativa harmonia e até produzindo cultura, cultura essa que é nossa e que foi representada à nossa maneira em “1755”, particularmente nessa música que viaja um bocadinho por Lisboa.»

É bom haver assim um fadista à antiga, de faca no bolso, com aquela voz meio-demónio/meio-angelical.

Fernando Ribeiro (Moonspell) sobre Paulo Bragança

“In Tremor Dei” foi outra canção que decidimos pedir a Fernando Ribeiro para dissecar, simplesmente porque nela temos Paulo Bragança como convidado a emprestar a sua voz e a dar um âmbito fadista ao álbum, porque se falamos de Lisboa falamos obrigatoriamente de fado. «Há vários fados, e o fado que apontamos mais, ou que gostamos mais, é um fado muito mais melancólico, que tenha um pouco a ver não só com o de Lisboa mas também com o de Coimbra.» Se à partida esta inclusão soa estranha, o outrora alcunhado de Langsuyar assegura que os próprios Moonspell, aqui ou ali, nos seus riffs de guitarra, já fazem isso acontecer quando despem a “Alma Mater” para acústico, parecendo um pouco fado – portanto, como afirma, também há esse tipo de harmonias no repertório da banda. Questionado se esta adição tomou logo conta do grupo ou se foi algo que foi crescendo como uma necessidade, responde: «Quando escrevemos “In Tremor Dei”, e essa foi a segunda ou terceira música do disco a ser escrita (já pertencia ao EP), havia uma certa parte em que existia uma voz que não estava muito bem relacionada com o fado… Provavelmente estava a relacionar-se muito mais com outro tipo de artistas, como os Dead Can Dance, e imediatamente pensei no Paulo Bragança, porque – dos discos que tenho dele, dos concertos que tinha visto e das poucas vezes que tínhamos estado juntos a partilhar o palco – identifiquei-me sempre muito com o que ele fazia no fado. Era assim uma espécie de fado punk, que evolui para uma coisa muito dark, muito gótica… Há uns anos, logo nos primeiros ensaios, o Ricardo [Amorim, guitarra] cantou nas maquetes, mas eu disse logo que isto ficava maravilhosamente bem cantado pelo Paulo Bragança.» Dito e feito, todavia: «O problema foi encontrá-lo! Depois de umas trocas assim meio facebookianas, onde não se consegue estabelecer nenhum tipo de contacto sério porque ou eu não vou lá ou ele não vai lá, fomos a Dublin [onde, à época, o convidado residia] e descobri o e-mail dele para dizer que estava lá, mas em todo o caso ele não chegou a aparecer no concerto… Pronto, era uma figura que tinha desaparecido de Portugal há praticamente mais de 10 anos, mas quem nós queríamos mesmo. O nosso instinto musical ou artístico para aquela música dizia-nos que o Paulo Bragança ficava ali muito bem. Foi um longo processo, mas lá nos conseguimos encontrar, lá nos tornámos amigos e acho que fez uma prestação fantástica. Para um músico é muito recompensador imaginares uma coisa, gravares uma coisa e conseguires ter mesmo a voz que queres a dar àquela interpretação… Ele já não cantava há algum tempo, mas nós – eu e o Pedro, mas especialmente o Pedro –, estivemos sempre em cima dele – no bom sentido – a tentar vencer aquela timidez por estar a cantar com os Moonspell, porque ele gostava da nossa música. Acho que foi um feito para nós trabalhar com o Paulo Bragança; fizemos outro amigo e, se calhar, as nossas colaborações não se vão ficar por aqui, pois achamos que o Paulo Bragança faz imensa falta à música nacional e ao próprio fado que ele vai ora aceitando ora renegando, mas pelo menos é uma voz desalinhada, um punk, um gótico dentro do fado, que é uma música que eu respeito muito mas que também se tem tornado quase banal nos dias de hoje. É bom haver assim um fadista à antiga, de faca no bolso, com aquela voz meio-demónio/meio-angelical, e acho que fizemos uma música muito conseguida. Só temos que agradecer ao Paulo.»

“1755” foi lançado em Novembro de 2017.

(A entrevista aqui reproduzida foi originalmente publicada no #12 da Ultraje, 2015-2019)

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