Cada banda tem a sua própria agenda e numa altura tão feroz como os primeiros cinco anos dos 1990s, a agenda transversal de várias... Emperor: 25 anos de “In The Nightside Eclipse”

Cada banda tem a sua própria agenda e numa altura tão feroz como os primeiros cinco anos dos 1990s, a agenda transversal de várias bandas de black metal seria, provavelmente, chocar, incendiar e até matar. Decorria o ano de 1994 e os Emperor tinham uma tarefa composta somente pela arte sonora, ficando de fora de todo o circo circundante. Nesse ano era lançado “In The Nightside Eclipse”, o primeiro longa-duração do grupo, e, para muitos, o melhor de uma discografia que ainda contaria com mais três álbuns até se separarem (pela primeira vez) em 2001. As restantes reuniões não resultaram em novos álbuns, mas serviram para dar concertos únicos e comemorativos, como a digressão que celebrou os 20 anos deste disco e a seguinte que recordou “Anthems to the Welkin at Dusk”.

Antes de mais, vale a pena fazer um painel do line-up desta obra de arte, porque, de facto, nem todas as bandas se podem dar ao luxo de ter os músicos que os Emperor têm – ou tiveram. O baixista Tchort talvez seja o menos sonante, ainda que em 1990 já tenha sido membro dos Green Carnation, integrando depois os Carpathian Forest, e actualmente compõe a formação dos The 3rd Attempt com Blood Pervertor, que tinha sido seu colega em Carpathian Forest. Na bateria, Faust não só é conhecido pela perspicácia musical, mas também por ter assassinado um homossexual, valendo-lhe quase dez anos de encarceramento; após libertação voltou a dedicar-se à música extrema. O guitarrista Samoth é um dos mestres do riff no que ao black metal diz respeito, e, tendo várias aparições efémeras noutros projectos, é o trabalho em Emperor que faz dele uma personagem importante na História do género. Por fim, Ihsahn é, ao lado de Samoth, a metade da alma de Emperor. É o satanista sóbrio que prefere morar numa cidade pequena e dar aulas de música a miúdos que aspiram ser tão bons ou melhores do que o seu educador. O resto já sabemos: álbuns a solo que são sucesso e inovação atrás de sucesso e inovação no plano progressivo.

Com “In The Nightside Eclipse”, os Emperor exponenciaram a rudeza dos riffs do black metal norueguês. Costumamos dizer que desconstruir é separar e simplificar, mas Samoth e Ihsahn fizeram precisamente o contrário. Desconstruíram sim, mas não para descomplicar; desconstruíram um conceito de escrita musical para florear, complicar (no bom sentido) e dizer aos seus pares do black metal que isto também lá ia com composições épicas, ainda que tenebrosas. É verdade que os teclados foram incluídos para preencher a atmosfera, mas é através das guitarras que todo o potencial deste disco se exibe. Nunca foi, nem será, um álbum para se ouvir às três pancadas; “In The Nightside Eclipse” é para se ouvir com extremada atenção, porque senão somos enganados como se uma bola de cotão barulhenta se tratasse. Os riffs desta peça são para ser interiorizados minuciosamente com o melhor sistema de som que possamos arranjar e, assim, perceber que Samoth e Ihsahn estavam, provavelmente, à frente do seu tempo. Não será de todo descabido incluir este álbum na génese das sonoridades avant-garde no universo metal e afirmar que muito do que se seguiu – por exemplo, com Arcturus – pode muito bem ter partido daqui, do infame ano de 1994 que também nos deu “De Mysteriis Dom Sathanas” dos Mayhem.

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