«Se o adjectivo “magnífico” só pudesse ser utilizado para descrever um disco, então “Pale Folklore” seria um sério candidato a essa distinção.» O primeiro... Agalloch: 20 anos de “Pale Folklore”

«Se o adjectivo “magnífico” só pudesse ser utilizado para descrever um disco, então “Pale Folklore” seria um sério candidato a essa distinção.»

O primeiro capítulo dos norte-americanos Agalloch deu-se em 1999 com a edição de “Pale Folklore”, um disco muito diferente de tudo aquilo que se tinha ouvido até então na América do Norte, com a sua mistura ecléctica de folk acústico tipicamente escandinavo com doom e riffs extraídos da cena black metal a convencer falsamente muitos dos ouvintes de que se trataria de uma banda europeia.

Antes da ascensão sonora que os Agalloch alcançaram em 2002 com “The Mantle”, e fruto do impacto que a trilogia “Three Journeyes Through the Norwegian Netherworlde” dos noruegueses Ulver teve no estabelecimento das bases desta cena musical, elementos sonoros inspirados em estilos como o neo-folk, dark ambient ou até o post-punk e o post-rock já podiam ser ouvidos na jornada de 60 minutos que é “Pale Folklore”, em que os growls, os vocais limpos, os gritos e os sussurros alimentam uma atmosfera reminiscente do black metal que abordava temas ligados à depressão, natureza, folclore e sobrenatural.

Os Agalloch assumiam o controlo de um estilo que era abandonado pelos Ulver a favor de incursões musicais mais experimentais, pegando no trabalho dos noruegueses e elevando-o a sonoridades mais épicas ou até cinematográficas como é o caso de “The Misshapen Steed”. Numa altura em que o metal se dividia em diferentes subgéneros, com as suas diversas ramificações a conseguir alargar as fronteiras musicais do estilo em todas as direcções, eram os Agalloch quem usavam a coroa neste condado e exerciam o seu domínio através de vigorosas melodias e uma forte capacidade de composição.

A diversidade musical dos Agalloch é evidenciada em “She Painted Fire Across The Skyline”, um tema dividido em três partes em que podemos ouvir desde vocais líricos de uma cantora de ópera, post-punk e atmosferas esfumaçadas que invocam um sentimento de Outono, a pianos, tambores, sinos e aos memoráveis riffs e leads de guitarra que viriam a inspirar os futuros nomes dominantes da cena shoegaze e blackgaze. Tal magnitude e influência permitia-nos testemunhar os primeiros passos dos Agalloch rumo a uma discografia icónica.

Costuma-se dizer que não vemos defeitos naquilo que amamos, e “Pale Folklore” é a prova disso. Os ouvidos mais atentos poderão captar falhas notáveis na concretização musical, deixando-nos a sensação de que também a produção poderia ter sido melhor trabalhada. Para além de vocalista e guitarrista, é John Haughm quem assume a responsabilidade da bateria, que, embora tenha providenciado uma prestação aceitável, estava ainda longe do que viria a oferecer com “The Mantle”, o sucessor de “Pale Folklore”. No entanto, tudo isto é ignorado a favor de uma beleza que nos hipnotiza. Este é um disco que seria facilmente ultrapassado e ofuscado pelos lançamentos posteriores, mas que oferecia um nível de maturidade incomum para um álbum de estreia e já dava a conhecer o calibre e o potencial da sonoridade e da capacidade de composição dos Agalloch. Se o adjectivo “magnífico” só pudesse ser utilizado para descrever um disco, então “Pale Folklore” seria um sério candidato a essa distinção.

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